domingo, 19 de abril de 2015

Russo no volante fala bastante

Minidicionário de gírias

Баранка [baranka] (literalmente ‘pão crocante tradicional russo servido com chá’) significa ‘volante’
Лошадь [lóchat'] (literalmente ‘égua’) significa ‘cavalo-vapor’
Люлька [liul'ka] (literalmente ‘berço’) significa ‘sidecar de uma motocicleta’
Мерин [mérin] (literalmente ‘cavalo castrado’) significa ‘Mercedes’
Подснежник [patsnejnik] (literalmente ‘campainha de inverno’) significa ‘uma pessoa que só dirige quando não há de neve’
Чайник [tcháinik] (literalmente ‘chaleira’) significa ‘motorista inexperiente’
Чёрный воронок [tchórnyi varanók] (literalmente ‘andorinha-dos-beirais preta’) significa ‘carro para transportar os presos nos tempos de repressões do Stalin’
Членовоз [tchlinavós] (literalmente ‘veículo para os membros’) significa ‘limusine para transportar líderes do governo dos tempos soviéticos’
Японка [iiponka] (literalmente ‘mulher da nacionalidade japonesa’) significa ‘carro feito no Japão’

Citações de poesias

Ossip Mandelstam, 1913:
В дорожном платье, с саквояжем,
В автомобиле и в вагоне,
Она боится лишь погони,
Сухим измучена миражем.

Valérii Briussov, 1914:
Проплывут, звеня, трамваи,
Прошумит, пыля, авто;
Люди, люди, словно стаи
Птиц, где каждая ― никто!

Vladímir Maiakóvskii, 1928:
Москва
меня
обступает,
сипя,
до шёпота
голос понижен:
«Скажите,
правда ль,
что Вы
для себя
авто
купили в Париже?»

Anna Akhmátova, 1950:
Где танк гремел ― там ныне мирный трактор,
Где выл пожар ― благоухает сад,
И по изрытому когда-то тракту
Автомобили легкие летят.

Irina Odóevtseva, 1951:
И уезжая кататься
В автомобиле, одна,
Я не могла улыбаться
Встречным друзьям из окна.

Nikolai Zabolótskii, 1957:
А машина во мраке стояла,
И мотор трепетал тяжело,
И шофёр улыбался устало,
Опуская в кабине стекло.

Josef Bródskii, 1961:
Вот и вечер жизни, вот и вечер идет сквозь город,
вот он красит деревья, зажигает лампу, лакирует авто,
в узеньких переулках торопливо звонят соборы,
возвращайся назад, выходи на балкон, накинь пальто.

Rádio

Baixe os podcasts do programa «Проехали». O autor deles é um jornalista capaz de fazer programas interessantes ainda para pessoas que não gostam de carros.

Filmes

«К Чёрному морю» (“Para o Mar Preto”, 1957) é um filme sobre um jovem casal que viaja de carro para o mar para comemorar o casamento. Assista o filme no YouTube.
«Порожний рейс» (“Percurso vazio”, 1962) é um filme sobre motorista de caminhão que trabalha na indústria florestal e não é uma boa pessoa... Assista o filme no YouTube.
«Королева бензоколонки» (“Rainha de posto de gasolina”, 1962) é um filme sobre trabalhadora talentosa. Assista o filme no YouTube.
«Берегись автомобиля» (“Cuidado com o carro”, 1966) é um filme sobre “Robin Hood” soviético da década de 1960. Assista o filme no YouTube.

“Desordeiro”

segunda-feira, 13 de abril de 2015

O que os russos falam de sobriedade

Não foi o povo da Rússia que implementou botequins (mas onde só era possível beber álcool sem comer nada) na prática da vida nacional mas sim foi Ivã IV O Terrível. Vontade russa ortodoxa de viver a vida sóbria sempre existia aqui. As palavras “estai alerta” do versículo 5:8 da 1-a Epístola de São Pedro (“Estai alerta e vigiai, pois o vosso adversário, o diabo, anda em volta como um leão que ruge, procurando a quem devorar”) traduz-se para russo como «трезвитесь» [tr'izvit'iç'] que significa literalmente ‘tentem estar sóbrios’: «Трезвитесь, бодрствуйте, потому что противник ваш диавол ходит, как рыкающий лев, ища, кого поглотить». Já para eslavo eclesiástio esta palavra foi traduzida assim: «Трезвитесѧ, бодрствүйте, зане сүпостатъ вашъ дїаволъ, ѩкѡ левъ рыкаѧ ходитъ, искiй кого поглотити» (é o mesmo versículo mas em eslavo eclesiástico).
Hoje em dia a palavra “sobriedade” traduz-se para russo como ‘трезвость’ [tr'ezvaç't']. Em eslavo eclesiástico existe outro termo para isso — трезвѣнie [tr'ezvénie], repetido muitas vezes nos textos do tipo “Divina liturgia do São João Crisóstomo”, “Alfabeto espiritual” ou “Filocalia”, por exemplo: «трезвѣнie єсть художество духовное, ѿ страстныхъ помыслѡвъ и словесъ, и лукавыхъ дѣлъ, совершеннѡ человѣка съ помощію бж҃іею избавляющее», «трезвѣнie єсть путь всякія добродѣтели и заповѣди бж҃ія», «Якоже быти причащающымся во трезвѣнie души, во ѡставленіе грѣхѡвъ, въ пріѡбщеніе ст҃агѡ твоегѡ дх҃а, во исполненіе црс̑твія нбс̑нагѡ, въ дерзновеніе єже къ тебѣ»... Claro que para ser um bom crente não foi bastante desistir de álcool ou limitar o consumo dele, mas foi preciso fortalecer seu espírito.
Ao mesmo tempo nem cada pessoa na Rússia entende o que falam e cantam na igreja ortodoxa russa, pois lá falam e cantam em eslavo eclesiástico. Porém, o desejo de sobriedade também é simplesmente popular. O povo tem alguns provérbios sobre o assunto (лихой и без хмелю лих, лихому человеку вина не надобно, пьяная голова всегда глупее трезвой e outros). Foram os camponeses russos que fundaram as primeiras comunidades de sobriedade no fim da década de 1850, e o Leon Tolstoi só em 1887 fundou сomunidade de sobriedade chamada de “Acordo contra a embriaguez”.
A história do costume russo de beber álcool é complicada e causada por influência política (leia mais no livro escrito por Ivan Pryjóv “História de botequins na Rússia em conexão com a história do povo russo” / Иванъ Прыжовъ. Исторія кабаковъ въ Россіи въ связи съ историей русскаго народа. Изданіе книгопродавца-типографа М. О. Вольфа, 1868, colocado em .pdf na Wikipédia). Saiba também sobre proibições da venda de vodka por Nicolau II (1914), por Lênin (1917), por Gorbatchev (1985) com esse slogan «Трезвость — норма жизни» (‘sobriedade é norma de vida’) e sobre os múltiplos relegalizações desta bebida no século XX.
Трезвый [tr'ézvyi] significa ‘sóbrio’. As expressões ни в одном глазу [nivadnóm glazu] (‘em nenhum dos olhos’) e как стёклышко [kak stióklychka] (cтекло é ‘vidro’) significam o mesmo. E трезвенник [tr'ézvinik] significa ‘abstêmio’. Абстинент também significa o mesmo, mas para nós essa palavra é um termo. Pelo contrário, numa conversa comum a gente fala непьющий [nipiúchtchii] que significa ‘quem não bebe álcool’.
E o que os poetas, esses mestres da língua, escreveram no contexto?

Ossip Mandelstam, 1913:
И гораздо глубже бреда
Воспалённой головы ―
Звёзды, трезвая беседа,
Ветер западный с Невы.

Maksimilián Volóchin, 1925:
В трезвом, тугом ремесле ― вдохновенье и честь поэта:
В глухонемом веществе заострять запредельную зоркость.

Gueorgui Chengueli, 1942:
И ныне, седой и сгорбленный,
Сквозь трезвость и сквозь измолотость,
Я тёплою Вашей памятью
С полночным делюсь рыданием.

Nikolai Rubtsóv, 1962:
Где трезвый тост
За промысел успешный?
Где трезвый дух
Общественной пивной?
Я первый раз
Вошел сюда, безгрешный,
И покачал кудрявой
Головой.

Arsênii Tarkóvskii, 1963:
Так елозит по экрану
С реверансами, как спьяну,
Старый клоун в котелке
И, как трезвый, прячет рану
Под жилеткой из пике.

“Casa de abstêmios”

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Alguns nomes de bairros de Moscou

O que burgueses e czarinas, irmãos e netos, alces, falcões e lúcios, azereiros-dos-danados e freixos têm em comum? Não há nenhum segredo nisso para moscovitas. Sem fazer analise etimológica séria um morador da capital russa reconhece traços dessas palavras em nomes de bairros de Moscou e da região de Moscou:



  • bairro de Мещанский [michtchánskii]: мещанин [michtchanin] — ‘burguês’
  • bairro de Царицыно [tsarítsyna]: царица [tsaritsa] — ‘czarina’
  • bairro de Братеево [brat'éiva]: брат [brat] — ‘irmão’
  • bairro de Внуково [vnúkava]: внук [vnuk] — ‘neto’
  • bairro de Лосиный Остров [lacínyi ostraf]: лось [los'] — ‘alce’, остров — ‘ilha’, лосиный остров — ‘ilha de alces’
  • bairros de Сокольники [sakól'niki], Соколиная гора [sakalínaia gará], Сокол [sókal]: сокол [sókal] — ‘falcão’ 
  • bairro de Щукино [chtchúkina]: щука [chtchuka] — ‘lúcio’
  • bairro de Черёмушки [tchiriômuchki]: черёмуха [tchiriômukha] — ‘azereiro-dos-danados’
  • bairro de Ясенево [iáciniva]: ясень [iácin'] — ‘freixo’

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Nomes novos e velhos de ruas russas

Falam que o mundo não é preto e branco. Às vezes ele é branco e vermelho — vem pra rua russa para saber mais sobre antônimos contextuais na nossa "linguagem revolucionária". O processo de renomeação de ruas nas cidades da Rússia reflete as mudanças históricas e obedece à terceira lei da dialética, à lei da negação da negação... E antonímia nasce assim, do espírito de contradição! Claro que no sentido literal muitas vezes não havia de antonímia nenhuma nisso, mas a vontade de renomear os lugares era forte.

  • A travessa Протопоповский переулок, do sobrenome Protopopov, mas percebida como travessa Arcipreste (протопоп significa 'arcipreste'), em 1924 virou Безбожный переулок, travessa Ateia (безбожник significa 'ateu', e без Бога significa 'sem Deus'), mas em 1992 voltou seu nome. (Veja a travessa no GoogleMaps.)
  • Патриаршие пруды, lagoas de Patriarca (de Hermógeno de Moscou, 1589—1606), onde em invernos do século XIX patinavam filhas do Leon Tolstoi, em 1924 ganharam o nome de lagoas de Pioneiros (saiba mais desse movimento comunista juvenil: em português, em russo). E agora moscovitas entre si chamam familiarmente as lagoas de Патрики — em russo Патрик significa Patrício; falando assim os jovens pensam na Irlanda. (Veja as lagoas — que na verdade são uma lagoa considerada mais como conjunto de ruas do que corpo de água — no GoogleMaps.)
  • O nome da rua Знаменка é relacionado com o nome de uma igreja de Знамения Пресвятой Богородицы (da Virgem Orante que aparece em ícones com mãos elevadas e com as palmas voltadas para o alto). A palavra eclesiástica Знамение significa 'sinal divino'. Há também uma palavra parecida, знамя. Ela significa 'bandeira'. E красное знамя é 'bandeira vermelha' soviética, um maior sinal do país ateu. Claro que em 1918 a rua Знаменка virou a rua Краснознамённая e existia com esse nome até 1925... (Veja a rua no GoogleMaps.)
  • Дворцовая набережная — o cais dos Palácios, um lugar maravilhoso em São Petersburgo — no período de 1923 até 1944 tinha outro nome — набережная Девятого Января — o cais 9 de Janeiro (palácios contra cabanas, czar contra a população — saiba mais sobre o massacre do Domingo Sangrento de 1905: em português, em russo e veja o cais no GoogleMaps.)
  • Os nomes de ruas são diferentes, mas o processo de renomeação em várias cidades (por exemplo em Tcheliabinsk ou em Togliatti) é igual. Porém, esse jogo renomeador nem sempre é cruel, ele também pode parecer engraçado: a rua Миллионная em São Petersburgo durante o ano de 1733 tinha o nome de Немецкая улица (rua Alemã), e no período de 1734—1735 ela já era Греческая улица (rua Grega). Claro que significados de topônimos na maioria de casos não podem ser opostos, mas moradores urbanos consideram resultados de renomeações como contraste evidente! (Olhe no GoogleMaps.)


Rua Soviética, ex-Fidalga. A cidade de Velsk na região de Archangel

domingo, 5 de abril de 2015

Literatura russa como uma equipe de professores da língua

Literatura da Rússia parece universidade. Cada bom autor russo tem a sua maneira de escrever, tem seus pontos fortes que podem ajudar a melhorar o seu conhecimento do idioma. Então vale a pena tentar ler livros no original considerando cada escritor como mais um professor de russo!

  • Para começar a falar russo recombine as palavras que você já aprendeu, construa as suas próprias frases. E na literatura o escritor Andrei Platonov fez isso mesmo com a linguagem russa: ele sabia combinar as palavras como ninguém antes dele. Usando vocabulário comum e até pobre, ele conseguiu construir grande fábrica de frases simples, mas geniais. Leia livros do Platonov no original e você vai ver o que é arte de lidar com as palavras russas.
  • Você estuda russo há pouco tempo mas já tem vontade de ler livros sérios? Então fique longe de obras, escritas por Dostoiévskii ou Tolstoi: esses mestres acumulavam frases infinitas nos seus romances sem vergonha. Para você é cedo falar assim, é ou não é? Abra contos do Tchekhov ou “Poemas em prosa” do Ivan Turguênev onde você vai encontrar frases mais lacônicas. Leia também livros do Isaac Babel e do Serguei Dovlatov.
  • Você é aluno teimoso e se sente melhor construindo frases longas? Sem sombra de dúvida, as obras famosas do Dostoiévskii ou Tolstoi explicam como falar dos seus sentimentos usando nuances da língua russa. Mas o pioneiro neste campo era Nikolai Karamzin que utilizou a sintaxe francesa na linguagem literária russa e também enriqueceu o idioma russo por muitas palavras. Leia “Pobre Liza” desse escritor sentimentalista e descubra quem era “menina e moça” russa.
  • Você quer falar russo fluentemente? Leia obras do Gaitó Gazdanov: esse escritor russo da origem osseta conseguiu expressar o lado viajante de seu heroi que viajou de lembrança a lembrança, de associação a associação, de imagem a imagem, livremente, sem esforços. Mas a primeira pessoa que conseguiu escrever as frases mais vivas na história da nossa língua era arcipreste Avvakum Petróv, um velho crente do século XVII, que falou de si como se fosse nosso contemporâneo. Leia obras de autores assim, fale cada vez mais livremente mesmo, e quem sabe, talvez um belo dia o seu caminho de andarilho nas terras da língua russa vai virar a trajetória de um cosmonauta!
  • Gosta de rir de tudo e pretende também brincar em russo? Leia obras de Nikolai Gogol, Mikhail Saltikóv-Chtchedrin, Mikhail Zóchtchenko, Iliá Ilf e Evguénii Petróv, Vladímir Voinovitch — e nem só os seus compatriotas, mas também os russos vão rir das suas brincadeiras.
  • Os fatos de bilinguismo sabem motivar as pessoas, viu? Você é descendente de polacos e também ama a língua russa? As obras do Iuri Olecha, escritor russo cujo idioma nativo era polonês, vão inspirar você a dedicar mais horas à aprendizagem de russo. Saiba mais sobre Vladímir Nabokov que conseguiu escrever as obras literárias em inglês assim como em russo e sobre Tchinguiz Aitmatov que também era autor bilíngue (quirguiz / russo).
  • Você adora variação linguística? Mikhail Chólokhov no livro “O Don tranquilo” ensina você a falar como cossacos do rio Don, usando muitas palavras que só falam lá. Contos do Pavel Bajóv são como curso de léxico dos montes Urais, os livros do Vassílii Chukchin vão “falar” com você como falam moradores de Altai entre si.
  • Quer falar russo sobre a Rússia e ser autêntico nisso? Ivan Búnin, Serguei Iessênin, Nikolai Rubtsóv, Mikhail Príchvin conseguiram descrever a natureza russa assim como bétulas da Rússia se descreveriam se soubessem falar. E Alexandr Ostróvskii, Nikolai Leskóv, Maxim Górkii afirmaram as coisas exatas sobre a nossa vida em geral e em detalhes.
  • Quer escrever poesia em russo? Alexandr Púchkin não era único autor que conseguiu escrever em russo perfeitamente e ser clássico nisso. Arsênii Tarkóvskii, Bella Akhmadulina, Olég Tchukhontsev, Serguei Chestakóv também são poetas russos clássicos, mas eles são mais contemporâneos que “o nosso tudo” (= Púchkin). Porém, as obras perfeitas não ensinam como ser poeta russo, porque cada imitação delas sem base da vida russa real só será percebida como imitação. É a literatura antiga russa que ensina a notar detalhes em natureza (“Palavra sobre regimento de Ígor”, século XII) e aprender a ser poeta então.
  • Claro que nem só os escritores podem ajudar na sua aprendizagem da língua. Você ama história e também estuda russo? Leia no original os discursos do Vassílii Óssipovitch Kliutchévskii que sabia construir os textos assim muito bem.


Veja mais livros em russo aqui.